aquisoufeliz

Sunday, November 26, 2006

(...)
No que rrestava do jardim regámos as laranjeiras e uma pequena horta
e com a flor dos cardos do deserto decorei os cabelos de Eva
e os olhos de Eva
E a sua barriga começou a crescer
enquanto líamos e esperávamos
começou a crescer enquanto as estrelas seguiam inconscientes
(...)

Pedro Eiras

Thursday, November 16, 2006

Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...Assombro ou paz?
Em vão...
Tudo esvaído num grande mar enganador de espuma;

E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...

Mas na minh'alma tudo se derrama...
No entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo... e tudo errou...
Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...

Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...
Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...

Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Mário Sá Carneiro

Os dias

O quarto desarrumado, o caos, peças desencontradas, tudo revirado do avesso
e a inércia, não conseguir começar por lado algum, porque o que está num turbilhão é o seu próprio interior
E os dias, sempre iguais, sempre feitos da mesma forma, sem afecto, desligados de tudo...
Há muito que desistiu, limita-se a entreter com o que a vida lhe dá
Sabe que no final o que é mais certo na sua vida é ter-se a si própria

Os outros...
Os outros, sempre foram os outros e não continuação dela
Queria sentir entrar no outro como se não existisse um muro inivsível
Muro invisível que sempre existiu nas suas relações
Fica sempre pela camada superficial das pessoas
Deve ser por isso que se sente tão só
Tem tanta dificuldade em comunicar que fica enclausurada em si
Apetece-lhe gritar, falar, falar, falar...
Mas algo a sufoca, lhe corta as palavras antes mesmo de as pronunciar

Sempre foi assim, sempre ouviu mais do que falou
Talvez por não ter assim tanto o que falar, talvez por se sentir oca
Mas isso só fez criar uma distância maior entre si e os outros
Quando está com os outros raramente se sente confortável
Os olhares perseguem o seu corpo, a sua cara, os seus olhos e a sua mente
Gostava de relaxar, de não pensar mil vezes antes de dizer uma coisa simples...

Por isso hoje se sente assim, apenas consigo própria, enroladinha na sua concha.

Saturday, September 30, 2006

Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.

Paulo Leminski

Sobre o amor...

Então Almitra disse:
- Fala-nos do Amor.

Ele levantou a cabeça e olhou o povo;
um silêncio caiu sobre eles.
E disse com voz forte:

- Quando o amor vos fizer sinal, segui-o;
ainda que os seus caminhos sejam duros e escarpados.

E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos;
ainda que a espada escondida na sua plumagem vos possa ferir.

E quando vos falar, acreditai nele;
apesar da sua voz poder quebrar os vossos sonhos como o vento norte ao sacudir os jardins.

Porque assim como o vosso amor vos coroa, também deve crucificar-vos.

E sendo causa do crescimento deve cuidar também da poda.

E assim como se eleva à vossa altura e acaricia os ramos mais tenros que tremem ao sol,
também penetrará até às raízes sacudindo o seu apego à terra.

Como braçadas de trigo vos leva.

Malha-vos até ficardes nus.

Passa-vos pelo crivo para vos livrar do pilhaço.

Mói-vos até à brancura.

Amassa-vos até ficardes maleáveis.
Então entrega-vos o seu fogo, para poderdes ser o pão sagrado no festim de Deus.

Tudo isto vos fará o amor, para poderdes conhecer os segredos do vosso coração,
e por este conhecimento vos tornardes um bocado do coração da vida.

Mas, se no vosso medo, buscais apenas a paz do amor, o prazer do amor,
então mais vale cobrir a nudez e sair da eira do amor, a caminho do mundo sem estações, onde podereis rir, mas nunca todos os vossos risos, e chorar, mas nunca todas as vossas lágrimas.

O amor só dá de si mesmo, e só recebe de si mesmo.

O amor não possui nem quer ser possuído.

Porque o amor basta ao amor.

Quando amardes, não digais:
- Deus está no meu coração, mas antes: eu estou no coração de Deus.

E não penseis que podeis guiar o curso do amor, porque o amor, se vos julgar dignos, marcará ele o vosso curso.

O amor não tem outro desejo senão consumar-se.

Mas se amardes, e tiverdes desejos, deverão ser estes:

Fundir-se e ser um regato corrente a cantar a sua melodia à noite.

Conhecer a dor da excessiva ternura.
Ser ferido pela própria inteligência do amor, e sangrar de bom grado e alegremente.

Acordar de manhã com um coração alado e agradecer outro dia de amor.

Descansar ao meio dia e meditar no êxtase do amor.

Voltar a casa ao crepúsculo com gratidão e adormecer tendo no coração uma prece pelo bem amado e um canto de louvor na boca.

In “O profeta”
Khalil Gilbran

Apesar de um tanto ao quanto religioso acho bonito.

Thursday, September 21, 2006

Conexões

Cada vez mais dou importância aos laços, ás relações que estabeleco com as pessoas. Penso que são elas que nos dão o sentimento de pertença ao mundo que nos rodeia. Sempre pensei que a felicidade passava muito por o amor, por o facto de amar e ser amada por alguém. Mas cada vez mais percebo como isto é falso.
A vida é muito mais do que a relação amorosa entre dois seres. E o amor está presente noutros laços que por vezes não damos muito importância, como os amigos e a família.
Penso que quando acabamos um grande amor, olhamos para os outros de forma diferente e redescobrimos ligações que tinhamos deixado esquecidas ou adormecidas. Por isso, cada dia que vai passando, vou tentando cultivar as pessoas que me ligam à vida.
Tem acontecido uma coisa engraçada, ao fim de tantos anos reencontrei as minhas primas e todas elas tornaram-se pessoas fantásticas, e em todas elas vejo um motivo para ter gosto pela vida, pois são um exemplo de força para mim. E quando penso nelas, um sorriso surge, e o sentimento de carinho e afecto por todas faz-me reforçar a ideia de que estas relações são preciosas e tão importantes como o ar que respiramos. A todas vocês obrigado, e toca a fazer tudo para vermo-nos mais vezes :)

Wednesday, September 20, 2006

Quero ser teu amigo

Quero ser teu amigo
Nem demais e nem de menos
Nem tão longe e nem tão perto
Na medida mais precisa que eu puder
Mas amar-te como próximo, sem medida,
E ficar sempre em tua vida
Da maneira mais discreta que eu souber
Sem tirar-te a liberdade
Sem jamais te sufocar
Sem forçar a tua vontade
Sem falar quando for hora de calar
E sem calar quando for hora de falar
Nem ausente nem presente por demais,
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amigo,
Mas confesso,
É tão difícil aprender,
Por isso, eu te peço paciência
Vou encher este teu rosto
De alegrias, lembranças!
Espero conseguir acertar nossas distâncias

Fernando Pessoa